Depois da participação
portuguesa nos Campeonatos de Espanha de Orientação de Precisão
2012 e nas vésperas da segunda etapa da Taça de Portugal daquela
disciplina, o Orientovar publica uma Entrevista com Humberto Santos,
Presidente do Comité Paralímpico de Portugal. São declarações
plenas de importância e onde se releva o espírito inclusivo e a
componente social da modalidade.
Orientovar - Teve a
oportunidade, em Viseu, de assistir pela primeira vez a uma prova de
Orientação de Precisão e a uma demonstração de Actividade de
Orientação Adaptada. Que especial emoção é que estas iniciativas
despertaram em si?
Humberto Santos – Foi, de
facto, a demonstração de que é possível. De que é possível
termos em Portugal um desporto inclusivo, um desporto para todos, um
desporto onde as pessoas com deficiência podem, a par dos outros
cidadãos, participar nos eventos desportivos. Haja vontade, haja
querer, haja motivação para o efeito e, na verdade, a organização
destes eventos demonstrou cabalmente que é possível.
Orientovar - O Comité
Paralímpico de Portugal tem estado envolvido num Projecto que tem
como nome “Inclusão Desportiva”. De que forma é que a
Orientação de Precisão assenta neste projecto?
Humberto Santos – Que nem
uma luva, claramente. No âmbito desde projecto, temos tentado
sensibilizar os diferentes agentes desportivos para um novo
paradigma, um paradigma de inclusão, onde temos vindo a afirmar que
o desporto para pessoas com deficiência deve ocorrer onde, de facto,
todos os outros estão. Aquilo que pudemos ver foi exactamente essa
vivência, essa realidade, em que a Federação Portuguesa de
Orientação cria aqui dois eventos que se complementam e que são a
demonstração de que não há que ter receios. Há é, na verdade,
que estruturar pensamentos, tentar encontrar soluções para
eventuais dificuldades, espírito de imaginação, grande
colaboração. E, na verdade, as coisas acontecem.
Mudança
de paradigma
Orientovar – Estava à
espera de ver aquilo que realmente viu?
Humberto Santos – Desde a
primeira hora que este evento suscitou em mim uma grande curiosidade,
daí ter feito a opção de estar aqui hoje. Queria perceber, no
terreno, como é que as coisas funcionam. Mais do que alguém chegar
a Lisboa e dizer “aquilo foi assim e assim”, eu quis ver. Neste
momento temos quinze Federações – entre elas a Federação
Portuguesa de Orientação – que aderiram aos princípios do Comité
Paralímpico e são seus membros. Há Federações que colocaram um
membro da sua Comissão Executiva com responsabilidades na área do
Desporto Adaptado. Há outras que criaram Comissões de Modalidades
Adaptadas. A Federação Portuguesa de Orientação está a organizar
eventos onde demonstra, de facto, que é possível acontecer esta
mudança de paradigma. Nós só pudemos aplaudir e agradecer a todos
aqueles que de alguma forma contribuem para esta demonstração dum
mundo diferente e melhor.
Orientovar – Quando
regressar a Lisboa, o que é que irá ficar destas experiências?
Humberto Santos – O que eu
registei foi uma grande jornada de confraternização entre um grupo
muito diversificado de pessoas. Esta é uma modalidade em que eu
poderia vir aqui com a minha esposa e com os meus filhos e passarmos
um dia diferente daquilo que é estar em casa. Para além de termos
este contacto com a paisagem envolvente, teríamos a possibilidade de
contactar com muitas pessoas que, a prazo, só podem tornar-se
amigas. Eu acho que aquilo que verifiquei hoje, durante as horas que
aqui estive, foi uma grande relação de proximidade entre todos
aqueles que fazem parte da família da Orientação.
Uma pretensão bastante ousada
Orientovar - Que
potencialidades vê na Orientação de Precisão para, um dia, poder
vir a tornar-se numa modalidade Paralímpica?
Humberto Santos – A exemplo
do que tem acontecido com outras modalidades que estão exactamente
neste processo, essa é uma pretensão bastante ousada da parte de
quem quer que seja. São sempre processos muito árduos, muito
exigentes, mas parece-me que as sementes lançadas entretanto podem,
a prazo, vir a criar as condições para que tenhamos todos, do ponto
de vista do plano argumentativo e justificativo, as ferramentas
necessárias para que esta modalidade venha a ser paralímpica. Se me
perguntar daqui a quantos anos é que isso acontecerá, eu não estou
em condições de o dizer. Agora, que tem potencial julgo que sim,
porque esta é uma modalidade que pode permitir, mesmo àqueles que
não tenham na Orientação de Precisão a sua modalidade de eleição,
desfrutar destes momentos excepcionais que a modalidade oferece.
Assim sendo, esta é uma modalidade
com todo o potencial de crescimento e, como sabemos, muita da decisão
em torno das modalidades paralímpicas passa muito pela expressão
que a modalidade tem nos diversos países que fazem parte do Comité
Paralímpico Internacional. E volto ao início para dizer que Viseu
ficará, seguramente, nos anais da história da Orientação de
Precisão, como um marco de sucesso na afirmação da modalidade em
Portugal.
Saudações orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO

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